terça-feira, 14 de julho de 2026

O CAFÉ NO FIM DO MUNDO - John Strelecky

 


Não cheguei nesse livro porque ele é um best-seller, muito menos porque ele tem mais de 5 milhões de exemplares vendidos.

Cheguei nele porque a palavra café gritou nos meus olhos e soou nos meus ouvidos.

Amo café, então tudo o que envolve esse universo me fascina.

E foi assim que cheguei a esse livro.

Mas, curiosamente, o café é apenas a porta de entrada. O verdadeiro convite acontece quando nos sentamos à mesa e percebemos que, às vezes, a vida nos interrompe justamente para nos fazer voltar ao essencial.

O Café no Fim do Mundo não é um livro sobre respostas. É um livro sobre perguntas. E talvez seja exatamente isso que o torna tão poderoso.

Enquanto lia, tive a sensação de que o autor não conversava com seus personagens. Conversava comigo. Em alguns momentos, me senti confortável. Em outros, profundamente inquieta. Afinal, existem perguntas que evitamos responder durante anos porque sabemos que, quando respondidas com sinceridade, exigirão mudanças.

O livro nos lembra que viver no piloto automático pode ser muito mais perigoso do que enfrentar o desconhecido. E foi aqui que tudo começou a fazer sentido, e o café ficou apenas como uma desculpa para sentar-se a uma boa mesa. Claro que isso é sempre um convite irrecusável.

O fato é que, quando vivemos correndo, acumulamos compromissos, conquistamos metas e, muitas vezes, esquecemos de perguntar se ainda estamos caminhando na direção da vida que desejamos viver. E, como Sócrates me encantou, esses questionamentos são essenciais para todos.

Como estudiosa do comportamento humano, encontrei nessa leitura algo que sempre repito nos treinamentos: uma vida sem propósito transforma qualquer caminho em um peso. Quando sabemos o motivo pelo qual acordamos todas as manhãs, até os dias difíceis encontram sentido.

A escrita é simples, quase delicada. Não impressiona pela complexidade das palavras, mas pela profundidade das reflexões. É aquele tipo de livro que parece pequeno nas mãos, mas continua enorme dentro da mente depois que a última página termina.

Não é uma leitura para quem busca grandes reviravoltas ou uma narrativa acelerada. É uma pausa. Um respiro. Uma conversa silenciosa entre você e você mesmo.

E talvez tenha sido justamente isso que mais gostei. Em um mundo onde todos parecem gritar, esse livro sussurra. E, às vezes, são os sussurros que mais transformam.

No fim, descobri que entrei nesse café por amor à bebida. Saí dele levando perguntas que já fazia, já tinha respostas, mas me relembrei delas e ainda me aprofundei nas respostas. 

E talvez seja esse o verdadeiro papel dos bons livros: não mudar a nossa vida no momento da leitura, mas fazer com que nunca mais consigamos olhar para ela da mesma forma.

Um café passado sem pressa. Daqueles que aquecem as mãos, desaceleram a alma e nos fazem permanecer mais alguns minutos à mesa da vida.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

DEUS NA ESCURIDÃO : Valter Hugo Mãe

 



Se não fosse tão trágico, sem dúvida este seria o livro mais amoroso que já li.

Deus na Escuridão nos conduz por uma narrativa marcada pela dor, mas é justamente em meio à escuridão que a luz do amor se revela com mais intensidade. A relação entre os irmãos é retratada com uma pureza rara, capaz de tocar profundamente o coração de quem lê. É um amor que não depende de circunstâncias, não espera recompensas e permanece firme mesmo diante das maiores provações.

Ao longo da leitura, torna-se impossível não perceber que essa forma de amar transcende o humano. É como se cada gesto, cada cuidado e cada renúncia fossem lembranças de que o amor verdadeiro nasce em Deus. A delicadeza com que o autor apresenta o belo, o puro e o incondicional faz com que a história ultrapasse as páginas e alcance a alma.

Mais do que um livro sobre sofrimento, Deus na Escuridão é uma obra sobre esperança. Ele nos lembra que, mesmo quando tudo parece perdido, Deus continua presente, transformando as maiores dores em testemunhos de amor.

Uma leitura intensa, emocionante e profundamente espiritual, que nos faz refletir sobre a presença de Deus justamente nos momentos em que mais acreditamos estar cercados pela escuridão.
Valter tem uma sutileza rara e uma desprendimento de ser absoluto. 


sexta-feira, 3 de julho de 2026

1808 - Laurentino Gomes

 

A história que não coube na sala de aula. 

1808 não é apenas um livro que informam, ele nos obriga a revisitar tudo aquilo que acreditávamos saber. Foi exatamente essa a sensação que tive ao terminar esta leitura.

Durante muitos anos, aprendi a história do Brasil como uma sucessão de datas, nomes e acontecimentos. Decorei fatos para provas, mas poucas vezes fui convidada a compreender as motivações, os interesses e as consequências que moldaram o país em que vivemos.

Este livro faz justamente esse convite.

Ele apresenta uma história que muitos de nós não conhecemos na escola. Não porque os fatos estivessem escondidos, mas porque, muitas vezes, foram simplificados. Ao mergulhar nessas páginas, percebi que compreender o passado é muito mais do que conhecer uma linha do tempo. É entender por que somos quem somos.

É impossível falar da formação do Brasil sem falar dos portugueses. Eles trouxeram língua, costumes, religião, instituições e deixaram marcas profundas na nossa identidade. Mas também trouxeram conflitos, exploração, desigualdades e cicatrizes que atravessaram os séculos.

A história raramente é feita apenas de heróis ou vilões. Ela é construída por escolhas, interesses e consequências. E talvez seja justamente essa complexidade que o livro nos ajuda a enxergar.

Ao longo da leitura, me peguei repetindo inúmeras vezes: "Agora faz sentido." Muitas características da nossa cultura, da nossa política, da nossa economia e até do nosso jeito de viver passaram a ter explicações que eu nunca havia conectado.

Ler história não é apenas olhar para trás. É compreender o presente. É perceber que muitos dos desafios que enfrentamos hoje nasceram há séculos e continuam ecoando em nossa sociedade.

Terminei o livro com mais perguntas do que respostas e considero isso um grande mérito. As melhores leituras não encerram um assunto; elas despertam a curiosidade e nos fazem continuar pesquisando.

Se você gosta de entender o Brasil para além dos livros didáticos, esta é uma leitura que vale a pena. Afinal, conhecer nossa história é, de certa forma, conhecer a nós mesmos.

Há, no entanto, um aspecto que merece atenção. Assim como toda obra que revisita a história sob uma perspectiva específica, este livro não deve ser lido como uma verdade absoluta, mas como um convite ao pensamento crítico. A história é construída por diferentes narrativas, documentos e interpretações. Por isso, mais importante do que concordar integralmente com o autor é permitir-se questionar, comparar versões e ampliar o olhar. Talvez esse seja o maior mérito da obra: não entregar respostas prontas, mas despertar no leitor a inquietação de continuar investigando. Afinal, uma sociedade que conhece sua história de forma crítica compreende melhor o seu presente e se torna mais preparada para transformar o seu futuro.

O fato é que somos um povo acolhedor. E talvez tenha sido justamente essa característica, tão bonita e tão presente em nossa identidade, que também nos tornou, em muitos momentos da história, ingênuos diante daqueles que aqui chegaram. Abrimos nossas portas, entregamos nossas riquezas e, por séculos, aprendemos a admirar aqueles que, antes de tudo, foram invasores. Herdamos costumes, crenças e estruturas, mas também pagamos um preço alto por essa entrega.

Ser acolhedor é uma das maiores virtudes de um povo. O problema começa quando a hospitalidade se transforma em submissão e a generosidade deixa de caminhar ao lado da consciência. Acolher é belo; entregar-se sem questionar, nem sempre. E essa talvez seja uma das lições mais profundas que a nossa própria história ainda insiste em nos ensinar.