segunda-feira, 20 de abril de 2026

LIBERTA Entre Cicatrizes e Recomeços - Rose Gigliozzi

 



Conheço a Rose há mais ou menos uns 5 ou 6 anos, e sempre tive admiração por ela: empreendedora, disciplinada, um ser humano excepcional. 

A conheci através de um grupo de mulheres empreendedoras, a UME, de Balneário Camboriú. 

Mas ao ler o Liberta, não conheci somente uma história, conheci uma mulher que eu ainda não conhecia. 

Esse livro é uma autobiografia, e foi na escrita que ela mergulhou em seu passado e recontou sua história. 

Seria muito clichê ficar falando da sua força, coragem, bravura e superação, pois o livro já fala sobre tudo isso. 

Aqui quero falar de uma narrativa real e avassaladora, com requinte de terror, medo, abuso, dor, lágrimas e tristezas. Esse livro trata disso, mas revela também o amor. 

Lembro da alegria com que a Rose me contou que estava escrevendo seu primeiro livro. Lembro-me daquele olhar que queria gritar ao mundo: “minha história, minha vida, minha superação.” 

O que tem de mais forte nesse livro é o não desistir, o não ficar por ficar. O livro fala do escolher mudar sempre que for necessário, mesmo sem ter ferramentas, inteligência emocional, dinheiro, sonhos, rotas, planos, estrutura ou qualquer coisa que possa ajudar... só uma certeza: é preciso mudar, é preciso fugir. 

Eu sei exatamente o que é resiliência, vivo isso intensamente, mas o que li nesse livro é um nome que ainda não está na nossa literatura, e nem em nosso vocabulário. Nem sei o que chamar, mas com certeza, coloca tudo num pote: resiliência, coragem, raiva, medo, dor e ação, mistura tudo e ainda não temos um nome, mas é isso tudo isso o que a Rose fez! 

Uma mulher não deveria passar (nem de longe) por 1% do que a Rose passou. Mas somente uma mulher seria capaz de passar por 100% do que ela passou, e ainda escrever um livro e andar de cabeça erguida, treinar, ser linda e acima de tudo usar batom vermelho.

Rose te admiro, te respeito e te honro! Tu és a força que toda mulher tem, mas que muitas não sabem usar. 

O VALE PROIBIDO - Batista Faria


Há encontros literários que não nascem da afinidade, mas da abertura de ler o que não estamos acostumados a ler. 

O Vale Proibido me levou a um território que, à primeira vista, não me pertence: o bangue-bangue, o faroeste no estilo norte-americano, seco, árido, distante do universo que costumo habitar como leitora. Ainda assim, permaneci.

E permaneci porque, por trás da paisagem bruta, havia delicadeza.

O livro se constrói como um quase conto breve, preciso, mas atravessado por uma suavidade inesperada, quase um sopro de romance em meio ao pó e ao silêncio. Há, na escrita, um cuidado com os detalhes que não grita, mas sustenta. Uma elegância discreta que conduz o leitor sem esforço.

A narrativa não se impõe. Ela convida. 

Percebe-se que a leitura, quando não limitada aos próprios gostos, expande. Abre frestas. Desorganiza certezas. Há uma espécie de descanso nisso. não o descanso passivo, mas aquele que vem da suspensão das preferências habituais, da entrega ao desconhecido.

Foi exatamente isso que encontrei aqui: um respiro.

Um encontro inesperado com um tema que não me era familiar, mas que, ainda assim, fez sentido. Que me prendeu, não pela força, mas pela sutileza. Que me acolheu, não pela identificação imediata, mas pela experiência.

Ler O Vale Proibido foi, no fim, um exercício silencioso de ampliação.
E talvez seja isso que a boa literatura faz, nos tira do lugar sem nos perder de nós mesmos.


 

domingo, 19 de abril de 2026

FILOSOFIA DO COTIDIANO - LUIZ FELIPE PONDÉ


Confesso que conheci há pouco tempo o Luiz Felipe Pondé, e a sensação foi: como assim só li ele agora? Sabe aquela sensação de “dormi demais”? Onde eu estava que não o li antes? Enfim, aquela nostalgia sufocante. Mas nada que eu não possa recuperar o tempo bem rapidinho.

E, falando em dormir, já no começo ele trata desse assunto: dormir cedo, dormir demais… e me vi ali. Concordo com tudo com ele sobre isso. Eu acordo muito cedo e, para mim, faz todo sentido esse aproveitar a vida e estar acordado, enfim.

A fala do Luiz é uma orquestra para mim: reta e direta, sem rodeios e sem frescura. Gosto de leituras e entendimentos assim.

A vida é tão clara e simples, e Luiz escreve isso. Só os tolos não entendem.

Sem exceção, todas as páginas trazem muitos aprendizados, mas ri muito quando ele disse mais ou menos assim: “eu escrevo  meu livro, escrevo como eu quiser, do jeito que eu quiser”.

Penso e escrevo assim também. É, sim, um pouco de egoísmo de nós, escritores, mas, se é meu livro, assim como o do Luiz, escrevemos exatamente como queremos, não para agradar ninguém, mas para expor nossa verdade. Ah, foi isso que vi nesse livro: uma enxurrada de verdade e fluidez.

Mas, mesmo com tanta verdade e fluidez, ele me fez desorganizar e reorganizar e me aquietar tudo dentro de mim! Simplesmente amei!

Há livros que nos explicam o mundo.
E há aqueles que, silenciosamente, nos confortam e nos dão tapas na cara, tipo, acorda pra vida! 

E sabe o que é mais bizarro nisso? Ele é óbvio! É tão óbvio que muitos vão ler e não vão entender uma linha!

E eu me achando a mais mais, pois entendi tudinho!

Filosofia do Cotidiano, de Luiz Felipe Pondé, pertence à segunda categoria. A primeira categoria acolhe as inquietudes e explica cada uma; ele não, ele cutuca. Ele atravessa várias flechas nas certezas e nos óbvios. Ele desmonta, peça por peça, essa tentativa quase infantil de transformar a vida em algo leve, bonito e coerente. Pondé escreve como quem recusa o consolo mas solidifica a verdade e profundidade do ser. Dessa forma escancara que a vida precisa ser mais real, mas vivida. 

Ele ataca a lógica por trás de qualquer discurso que promete organizar o humano sem o mínimo de realidade do sentir e do construir através dos sentimentos e de ser e sentir em sua essência nata. 

Cara, isso é tão óbvio que vibrei em cada página.

E talvez seja exatamente por isso que sua leitura incomoda tanto: porque não há abrigo em suas palavras, apenas espelho.

O cotidiano, aqui, não é cenário. É campo de batalha.

É no café apressado, na irritação sem nome, no silêncio desconfortável entre duas pessoas que a existência se revela em sua forma mais honesta. Não há grandeza e talvez nunca tenha havido. O que existe é uma sucessão de pequenas escolhas, pequenas frustrações, pequenas ilusões que sustentamos para conseguir continuar.

Pondé parece nos dizer, ainda que sem dizer diretamente: a vida não falhou, ela é assim. Simples assim. 

Simples e óbvia.

E há algo quase cruel nessa constatação, porque desmonta a fantasia contemporânea de que devemos ser felizes, realizados, plenos. Como se a dor fosse um erro de percurso, e não parte estrutural do caminho. Como se a inquietação fosse um defeito, e não o que nos mantém vivos.

Ao longo do livro, o autor tenciona essa obsessão moderna pela felicidade. Expõe sua superficialidade, sua teatralidade, sua dependência de olhares externos. A felicidade, nesse contexto, deixa de ser experiência e passa a ser performance.

E talvez o mais incômodo seja perceber o quanto participamos disso e o quanto nos acostumamos com isso. Não é óbvio?

A escrita é fragmentada, quase como pensamentos que nos atravessam no meio do dia sem aviso, sem organização, sem gentileza. Não há uma linha que nos conduza com segurança. Há, ao contrário, pequenas rupturas. Pequenos abismos. E o leitor, inevitavelmente, precisa se responsabilizar pelo que vê quando olha para dentro deles.

Isso é muito clichê, óbvio e real! E escrever e entender isso é o extraordinário! É simplificar visões e sentimentos que décadas de terapia não explicam.

Porque é disso que se trata, no fim: sobreviver a esse mundo sem ter a menor noção de quem és, como és e para onde vais.

Não é sobre entender o mundo. É sobre não conseguir mais ignorá-lo. E isso, para mim, é o mais óbvio e desafiador da realidade.

Aieeee, que convite maravilhoso a viver a realidade com todas as suas nuances óbvias e profundas!

Filosofia do Cotidiano não melhora a vida.
Mas altera, de forma irreversível, a maneira como passamos a habitá-la.

E, para finalizar, eu precisava colocar essa frase que fez total sentido para mim:

“As feministas não entendem nada de mulher.”

Simplesmente óbvia e real!

Pondé, teu livro foi um bálsamo para mim!


 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

HELENA - Machado de Assis

 


Em todos os meus anos como leitora, percorri poucos romances mas todos os que li me marcaram profundamente. Ainda assim, havia uma lacuna silenciosa: nunca tinha lido, Helena de Machado de Assis. E talvez seja curioso perceber que certas obras nos aguardam no tempo certo, como se soubessem quando estamos prontos para compreendê-las.

Helena é, à primeira vista, uma narrativa breve e até previsível em sua construção. Mas não é sobre a previsibilidade que repousa sua força. O que realmente pulsa na obra é a genialidade com que Machado de Assis vê os sentimentos humanos com delicadeza, precisão e uma intensidade que, silenciosamente, nos atravessa.

Trata-se de um romance tórrido em sua essência emocional, ainda que contido em sua forma. É um texto que não grita, sussurra. E talvez por isso mesmo seja tão poderoso. Ao longo da leitura, somos conduzidos por um fluxo de amor e dor que não se impõe, mas nos envolve, nos eleva e nos inquieta. Há algo de profundamente humano na maneira como esses afetos se entrelaçam: uma espécie de verdade emocional que não envelhece.

A cada pausa na leitura, eu sentia uma ausência inesperada uma saudade da escrita, da melancolia elegante, da atmosfera quase etérea que envolve os personagens. Machado constrói, com maestria, uma espécie de quimera do óbvio: aquilo que todos reconhecem, mas poucos sabem nomear. O amor ali retratado é genuíno, limpo, sereno  e, paradoxalmente, complexo em sua simplicidade.

Inácio e Helena vivem, como em todo grande romance, um sentimento que escapa aos olhares apressados. É o tipo de amor que os céticos desdenham, mas que os verdadeiramente sensíveis reconhecem de imediato quase como uma memória afetiva já vivida. Não se trata de ingenuidade, mas de uma percepção refinada daquilo que resiste ao tempo.

Em um mundo onde as relações se fragmentam com facilidade e as emoções se tornam superficiais, Helena nesse romance surge como um bálsamo. É perfume em meio ao ruído. É pausa. É respiro. A obra nos lembra que o amor não está necessariamente naquilo que é moderno ou evidente, mas nas camadas mais antigas da experiência humana, nas sombras, nas dores e nas delicadezas que atravessam gerações.

Ler Helena é, portanto, mais do que acompanhar uma história: é reencontrar um tipo de sensibilidade que o tempo insiste em esconder, mas nunca consegue apagar.

Esse livro foi publicado em 1876, o romance insere-se ainda no campo do Romantismo brasileiro, mas tenciona suas próprias convenções ao introduzir nuances psicológicas e morais que deixam bem complexa a narrativa.


segunda-feira, 13 de abril de 2026

A FILOSOFIA À MANEIRA DOS GEÔMETRAS - ESPINOSA


Há algo de profundamente desconcertante e, ao mesmo tempo, libertador na proposta filosófica de Spinoza. Ler esse livro me fez mergulhar em questões que já estavam resolvidas em mim, mas que é fundamental revisitar esses conceitos.

Em A filosofia à maneira dos geômetras, ele não apenas escreve filosofia: ele a constrói. Como um arquiteto do pensamento, ergue ideias com a precisão de quem traça linhas retas, define axiomas e demonstra verdades como se estivesse resolvendo um problema matemático.

Mas o que está em jogo aqui não é apenas método. É visão de mundo. Ler Spinoza me faz vê-lo sério, bravo e inquietante.

Spinoza parte de um princípio radical: tudo o que existe segue uma ordem necessária. Não há acaso no sentido humano da palavra, não há desvio arbitrário; há uma lógica profunda, estrutural, que organiza a realidade.

Sua filosofia é a expressão de sua crença de que a verdade pode e deve ser compreendida com clareza, rigor e inevitabilidade.

O impacto dessa abordagem é duplo.

De um lado, há uma sensação de estranhamento. Fiquei dias assim.
A emoção humana, os desejos, o amor, a dor  tudo aquilo que parece caótico e imprevisível  passa a ser tratado como algo inteligível, quase calculável. Spinoza desmonta o mito da liberdade como livre-arbítrio absoluto e nos confronta com a ideia de que somos, em grande medida, determinados por causas que desconhecemos.

De outro lado, há um convite silencioso à liberdade verdadeira, que pode ser construída e vivida a partir de uma certeza nata e inatingível. Aqui, sim, me identifiquei muito com ele.

Porque, para Spinoza, compreender é libertar-se. Quanto mais entendemos as causas que nos movem, menos somos escravizados por elas. A liberdade não está em agir sem causa, mas em conhecer as causas que nos atravessam e, a partir disso, agir com consciência. Esse conceito é épico!

É aqui que sua filosofia deixa de ser apenas um exercício lógico e se torna profundamente existencial.

Ao transformar Deus em natureza (Deus sive Natura), Spinoza dissolve a separação entre o divino e o mundo. Tudo é expressão de uma mesma substância infinita. Isso não diminui o sagrado; ao contrário, expande-o.

E aqui foi muito difícil o meu entendimento. Para mim, Deus é sagrado, e demorou muitas páginas para entender onde esse sagrado estava na dinâmica de Spinoza. O divino deixa de ser uma entidade distante para tornar-se a própria realidade em sua totalidade.

Aqui, o segundo conceito épico!

Ler A filosofia à maneira dos geômetras é, portanto, mais do que compreender um sistema filosófico. É submeter-se a um exercício de despersonalização do ego, de dissolução das ilusões e de reencontro com uma ordem maior que não nos diminui, mas nos insere.

Spinoza não consola. Ele revela.

E talvez seja justamente por isso que sua filosofia ainda inquieta: porque ela não nos permite permanecer na ignorância confortável de acreditar que somos livres sem nos conhecer.