domingo, 19 de abril de 2026

FILOSOFIA DO COTIDIANO - LUIZ FELIPE PONDÉ


Confesso que conheci há pouco tempo o Luiz Felipe Pondé, e a sensação foi: como assim só li ele agora? Sabe aquela sensação de “dormi demais”? Onde eu estava que não o li antes? Enfim, aquela nostalgia sufocante. Mas nada que eu não possa recuperar o tempo bem rapidinho.

E, falando em dormir, já no começo ele trata desse assunto: dormir cedo, dormir demais… e me vi ali. Concordo com tudo com ele sobre isso. Eu acordo muito cedo e, para mim, faz todo sentido esse aproveitar a vida e estar acordado, enfim.

A fala do Luiz é uma orquestra para mim: reta e direta, sem rodeios e sem frescura. Gosto de leituras e entendimentos assim.

A vida é tão clara e simples, e Luiz escreve isso. Só os tolos não entendem.

Sem exceção, todas as páginas trazem muitos aprendizados, mas ri muito quando ele disse mais ou menos assim: “eu escrevo  meu livro, escrevo como eu quiser, do jeito que eu quiser”.

Penso e escrevo assim também. É, sim, um pouco de egoísmo de nós, escritores, mas, se é meu livro, assim como o do Luiz, escrevemos exatamente como queremos, não para agradar ninguém, mas para expor nossa verdade. Ah, foi isso que vi nesse livro: uma enxurrada de verdade e fluidez.

Mas, mesmo com tanta verdade e fluidez, ele me fez desorganizar e reorganizar e me aquietar tudo dentro de mim! Simplesmente amei!

Há livros que nos explicam o mundo.
E há aqueles que, silenciosamente, nos confortam e nos dão tapas na cara, tipo, acorda pra vida! 

E sabe o que é mais bizarro nisso? Ele é óbvio! É tão óbvio que muitos vão ler e não vão entender uma linha!

E eu me achando a mais mais, pois entendi tudinho!

Filosofia do Cotidiano, de Luiz Felipe Pondé, pertence à segunda categoria. A primeira categoria acolhe as inquietudes e explica cada uma; ele não, ele cutuca. Ele atravessa várias flechas nas certezas e nos óbvios. Ele desmonta, peça por peça, essa tentativa quase infantil de transformar a vida em algo leve, bonito e coerente. Pondé escreve como quem recusa o consolo mas solidifica a verdade e profundidade do ser. Dessa forma escancara que a vida precisa ser mais real, mas vivida. 

Ele ataca a lógica por trás de qualquer discurso que promete organizar o humano sem o mínimo de realidade do sentir e do construir através dos sentimentos e de ser e sentir em sua essência nata. 

Cara, isso é tão óbvio que vibrei em cada página.

E talvez seja exatamente por isso que sua leitura incomoda tanto: porque não há abrigo em suas palavras, apenas espelho.

O cotidiano, aqui, não é cenário. É campo de batalha.

É no café apressado, na irritação sem nome, no silêncio desconfortável entre duas pessoas que a existência se revela em sua forma mais honesta. Não há grandeza e talvez nunca tenha havido. O que existe é uma sucessão de pequenas escolhas, pequenas frustrações, pequenas ilusões que sustentamos para conseguir continuar.

Pondé parece nos dizer, ainda que sem dizer diretamente: a vida não falhou, ela é assim. Simples assim. 

Simples e óbvia.

E há algo quase cruel nessa constatação, porque desmonta a fantasia contemporânea de que devemos ser felizes, realizados, plenos. Como se a dor fosse um erro de percurso, e não parte estrutural do caminho. Como se a inquietação fosse um defeito, e não o que nos mantém vivos.

Ao longo do livro, o autor tenciona essa obsessão moderna pela felicidade. Expõe sua superficialidade, sua teatralidade, sua dependência de olhares externos. A felicidade, nesse contexto, deixa de ser experiência e passa a ser performance.

E talvez o mais incômodo seja perceber o quanto participamos disso e o quanto nos acostumamos com isso. Não é óbvio?

A escrita é fragmentada, quase como pensamentos que nos atravessam no meio do dia sem aviso, sem organização, sem gentileza. Não há uma linha que nos conduza com segurança. Há, ao contrário, pequenas rupturas. Pequenos abismos. E o leitor, inevitavelmente, precisa se responsabilizar pelo que vê quando olha para dentro deles.

Isso é muito clichê, óbvio e real! E escrever e entender isso é o extraordinário! É simplificar visões e sentimentos que décadas de terapia não explicam.

Porque é disso que se trata, no fim: sobreviver a esse mundo sem ter a menor noção de quem és, como és e para onde vais.

Não é sobre entender o mundo. É sobre não conseguir mais ignorá-lo. E isso, para mim, é o mais óbvio e desafiador da realidade.

Aieeee, que convite maravilhoso a viver a realidade com todas as suas nuances óbvias e profundas!

Filosofia do Cotidiano não melhora a vida.
Mas altera, de forma irreversível, a maneira como passamos a habitá-la.

E, para finalizar, eu precisava colocar essa frase que fez total sentido para mim:

“As feministas não entendem nada de mulher.”

Simplesmente óbvia e real!

Pondé, teu livro foi um bálsamo para mim!


 

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