sábado, 12 de setembro de 2026

LIBERTINAGEM - Manuel Bandeira

 


LIBERTINAGEM — ENTRE A SIMPLICIDADE DA VIDA E A INQUIETAÇÃO DE EXISTIR

Um livro as vezes me arrebata, me deixa voando.  Outros entram silenciosamente na minha alma. E existem outros livro que quando termino, não sei ao certo e sem saber exatamente se gosto da obra ou daquilo que ela me fez pensar e refletir. 

Libertinagem, de Manuel Bandeira, ficou para mim nesse terceiro lugar.

Publicado em 1930, o livro carrega consigo a liberdade proposta pelo próprio título. Há uma ruptura evidente com a formalidade, com a poesia excessivamente ornamentada e com a necessidade de transformar cada verso em algo grandioso. Bandeira parece fazer justamente o contrário: ele aproxima a poesia da rua, da conversa, das memórias, do cotidiano, da doença, da infância, da morte e das pequenas coisas que quase sempre passam despercebidas.

Talvez tenha sido justamente aí que encontrei minha maior aproximação e também meu maior distanciamento com a obra.

Gosto da ideia de encontrar poesia onde aparentemente não existe poesia. Gosto quando a literatura retira o extraordinário de dentro do comum. Bandeira faz isso muitas vezes com inteligência e sensibilidade. Porém, em diversos momentos, senti falta de maior profundidade, daquela palavra que permanece depois da página, que incomoda, que provoca uma pequena desordem dentro de quem lê.

Alguns poemas me pareceram simples demais. Outros, quase fragmentos de acontecimentos que talvez tenham um significado muito maior para o poeta do que conseguem provocar em quem os recebe tantos anos depois.

E talvez isso também diga alguma coisa sobre literatura.

Nem toda obra considerada grandiosa precisa ser grandiosa para todos.

O tempo muda o leitor. A experiência muda o leitor. Aquilo que já vivemos determina, em parte, aquilo que uma palavra ainda consegue fazer conosco.

Ainda assim, existem momentos em Libertinagem em que Manuel Bandeira revela algo extremamente humano: a consciência de que somos feitos de desejos, lembranças, impossibilidades e fugas. Em “Vou-me embora pra Pasárgada”, talvez um de seus poemas mais conhecidos, há mais do que a vontade de partir. Há a criação de um lugar possível diante de uma realidade que nem sempre é.

E quem nunca inventou a própria Pasárgada?

Quem nunca desejou um lugar real ou imaginário  onde a vida pudesse obedecer um pouco mais aos nossos desejos?

Em “Pneumotórax”, Bandeira consegue tratar a proximidade da morte com ironia e uma espécie de resignação desconcertante. Poucas palavras carregam a consciência de que existem momentos em que já não há grandes soluções. Há apenas a vida sendo exatamente aquilo que é.

Talvez seja essa a força mais interessante de Libertinagem: Manuel Bandeira não parece interessado em transformar a existência em algo mais bonito do que ela realmente é.

Ele escreve a vida com suas faltas. Com suas memórias. Com seus desejos. Com seus absurdos.

Com aquilo que acontece enquanto estamos ocupados tentando encontrar algum sentido para acontecer.

Não terminei Libertinagem deslumbrada. E talvez uma boa resenha precise também ter coragem de dizer isso.

Reconheço sua importância para a poesia brasileira, sua ruptura estética, sua liberdade de linguagem e a maneira como Bandeira ajudou a aproximar a poesia da vida cotidiana. Gostei de alguns poemas, admirei determinadas imagens e encontrei reflexões que certamente permanecerão comigo.

Mas, como conjunto, esperava que o livro me provocasse mais. Talvez porque eu espere da poesia uma espécie de abalo.

Não necessariamente palavras difíceis, nem construções grandiosas. Mas aquela frase que nos obriga a interromper a leitura por alguns segundos porque encontrou exatamente uma parte de nós que ainda não sabíamos nomear.

Bandeira fez isso comigo algumas vezes. Eu apenas gostaria que tivesse feito mais.

Ainda assim, quando um livro termina e nos deixa pensando sobre aquilo que a poesia deve ou não provocar, talvez ele já tenha cumprido uma função importante.

Porque literatura também é isso: um encontro entre duas existências.

De um lado, alguém que escreveu. Do outro, alguém que chegou muitos anos depois trazendo outra história, outras dores, outras escolhas e outro olhar.

E entre os dois existe o livro. Às vezes há encantamento. Às vezes há estranhamento. Às vezes apenas uma conversa.

Libertinagem, para mim, foi uma conversa.

Não daquelas que mudam uma vida inteira.

Mas daquelas que, em alguns momentos, nos fazem olhar pela janela e pensar um pouco mais sobre ela.